11.7.21

Fique em Casa

Que classe de luz!Vontade de permanecer ali, de curtir cada ruela a do queijo da Serra da Estrela no  Príncipe Real, na véspera do regresso, de perder o olhar no Tejo  confundindo-se com o Atlântico palco de tantas histórias. Viver é um ir e vir de intermináveis surpresas. 
O Brasil  misto da  nostalgia dos fados, do cantar sofrido de alegrar senzalas, do batuque dos yorubás continente diverso dentro do continente sul - americano , o ocidente profundo é minha próxima parada. 
Calor de quarenta e sete graus marcava o relógio quando aterrissamos no Rio de Janeiro, afogada em  tarefas urgentes.  O carnaval aportou antes da hora, mil blocos, muita alegria, muito amor, muita adrenalina. Um explosão de  sons, de gentes celebrando a felicidade. Perder a Banda de Ipanema nem de longe - a saudade do Albino Pinheiro, que teve coragem de enfrentar a ditadura e sair em Ipanema para denunciar nosso país violentado - sempre bate forte na paradinha da esquina da Joana Angélica com a Visconde de Pirajá numa homenagem ao eterno Pixinguinha, que faleceu em pleno carnaval.
Carinhoso ... invade Ipanema. 
Qual o quê. Um resfriado me pegou de jeito. Não teve blocos, não teve Banda, não teve carnaval.  A Portela não foi campeã.
Sem solução.  Melhor dar um pulo para ver o Dr. Bruno Celória dar uma examinada. Na China aumentava a epidemia de um vírus desconhecido.
Exames, mil perguntas, radiografias por se acaso.
- Tudo certo.
- Olhou feliz, sorrindo. Medo só se você adoecer de verdade, e.. eu não souber o que fazer.
Dr. Bruno Céloria - jovem médico  de uma dedicação fantástica. Adoro seu jeito calmo, sua competência, seu interesse, sua ternura. Faz dez anos nos conhecemos em meio a uma febre arrasadora, calafrios, coração  em disparada.
- Enfermeira por favor: paracetamol, exame de sangue e hidratação.
- Não quero.
- Como não quer?
Exame de sangue, e soro aceito. Comprimido não. 
- Calma. O que você toma? 
- Limão com sal para a febre.
-Como limão com sal? De onde tirou isto?
- Ensinou-me um Guineanao quando tive dengue no exílio.
Dez anos, nos conhecemos, Com ele aprendi a ter 70 anos no terceiro milênio. 
Dia seguinte, sério, via whatsaap, recomenda.  A partir de hoje, 12/02/2020, nada de rua, cinema, visitar amigos, receber para um vinho ou cafezinho. Nada mesmo, até segunda ordem. Quarentena. Isolamento social. De acordo. 
Claro. Que passou?
Pandemia - uma mutação do coronavírus - COVID19 contagia o mundo. Nada a  fazer. Evitar  o contágio é ordem mundial. 
Mas, Bruno! 
_ Sem , mais Bruno. FIQUE EM CASA!
Faz 26 dias, do primeiro susto, da tomada de consciência, do novo calendário, do acerto na agenda, de novos projetos, da leitura postergada, de juntar a tantos outros, adequar a vida a um novo ritmo focando os dias na solidariedade. Dias de tristeza com tantas mortes e contagiados. Dias de alegria porque esperança segundo diz o ditado é a ultima que morre.
Não podemos mudar o curso do vento, mas podemos sim ajustas as velas. 




 

9.1.21

Seja você também mais um indicador do Premio às Brigadas Cubanas

29.9.20

ENTRE CAPIM LIMÃO E BRACHIARIAS

 

Entre Capim Limão e Brachiárias

 

Cheguei uma hora antes. Coisas de engenharia de trânsito. Sair na hora viável atrasa, se antes corre o risco de adiantar tanto como uma hora de antecedência, por exemplo. Assim foi. Evaldo sai da sala e depara comigo adiantadissssssssima. Um abraço feliz, perguntas sobre a família, esposa. O corriqueiro agradável.
- Aqui de volta. Faz um ano de toda aquela loucura. Hora de novos exames - brinquei
- Certo – argumentou tranquilo. O calor está insuportável. Não chove, a plantação padece. O capim fica todo calcinado, o gado sofre. 
- No interior também a seca está castigando dessa maneira?
- E, como? Sorte minha ter um caseiro boa gente, preocupado cuidadoso, que aprendeu a importância da terra, da preservação da água, do cuidado com o solo. Da necessidade de alternar o capim para fertilizar a terra. Errei algumas vezes, mas apostei na solidariedade. Mulher e sete filhos. 
Tomei como meta três situações: preservar um pedaço da mata atlântica, dar educação aos sete filhos do casal, todos hoje empregados com seus negócios próprios exceto o mais velho que decidiu ficar conosco. Todos casados, com filhos e nós cheios de netos. 
Atenta aprendi sobre gados, iogurte puro com a medida certa de B12, Embrapa e suas pesquisas exitosas, homens do campo alfabetizados, formas e tipos de capins, fontes puras ainda preservadas neste Brasil que esquecemos que existe. Como o terreno tem uma pequena inclinação plantamos vários tipos de braquiárias apropriada para o gado. 
- E, o capim gordura? Meu único conhecido, provavelmente pelo estranho nome. 
-Foi sendo substituído pelas braquiárias - explicou.

 

 




 

Brachiárias


Pena! Pensei no capim de um verde claro que engalanam as estradas que dão à histórica Tiradentes, e apelidamos verde limão capim da estrada. Será que darão lugar as braquiárias?  

-Que? Perguntou Evaldo.
- Nada. Nada. 
Encontrou algo? – pergunto sem ansiedade.
Nada. Vamos fazer os exames de rotina. Estes completam a nossa tranquilidade. Dr. Evaldo cuida a mulher com o mesmo carinho que preserva a terra, salva vidas com dedicação e muito conhecimento. Como a Embrapa pesquisa os segredos dos males que sufocam as alegrias. 
Regressando, Eduardo e eu decidimos caminhar, afinal o que é um Km numa tarde de verão depois de ouvir tudo que anseio na vida. O homem ajudando ao homem vencer suas dificuldades, contribuindo com o que está a seu alcance por aquele mundo que sonhamos.

Dr. Evaldo é mastologista. Criou no Andaraí, bairro do subúrbio carioca – um Centro de excelência para os terminais oncológicos. Carinho puro. O paciente recebe seus familiares, toma os remédios para as dores, vive em família até quem sabe. Parte

Companheiro de Partidos dos Caramez, especiais amigos, fui a seu consultório decidida a tirar os nove fora. Uma mamografia revelava um nódulo na mama direita. Investigamos, alguns positivos outros negativos. Operação marcada pós retorno cirurgião de Houston.  Biopsia negada, sem anestesia negativo. Fui emburrada. O Ultrassom repetido a pedido do cirurgião indicava um nódulo grau 4.

 Paciência. Vamos enfrentar esta a minha maneira. A segunda vez que me diagnosticavam com câncer de mama. Uma em fevereiro de 1984. Erro de leitura que me fez perder todos os quilos. Este no terceiro milênio.

Evaldo é muito simpático como devem ser os médicos que respeitam a vida. Conversamos sobre tudo, politica nacional, internacional,

 estórias dos anos 60. Sem mais nem porque disparei: não quero que você me toque. Quero tr6es pedidos de mamografia e ultrassom da mama. Faço depois conversamos. Olhou perplexo sorriu.

- Aqui quem manda é o paciente.

Duas semanas passaram.

Exame de rotina?  Perguntou Dra Pilar – espanhola bonita - especialista em mamas. Exames anteriores?

- Deixei no Taxi, dia destes.

Cautelosa, girou quase meia hora a dupla que enfeita, dá vida e adoece por vezes. Com ou sem cura. Incógnita sempre.

- Tudo bem? – pergunta Eduardo o companheiro de vida, de dores, de medos e alegrias.

-Tudo. Bastante densa. Sem novidade.

- E, o nódulo grau 4? 

Como anos atrás o mesmo questionamento?

- Como nódulo grau 4?

-  Não tire o Gel. Vamos ver outra vez. Estava espantada.

- Asseguro que nada. Nem na mamografia, tampouco na ultra.

- Marilia Guimarães – chamou a recepcionista – Pode entrar.

- Como vão as braquiárias?

- Passei o final de semana no sitio. Estão bonitas. Deu para dar uma boa relaxada da semana exaustiva.

- Tirei dos envelopes todos os exames, ordenei por data. Aí estão.

Leu releu. Fez medições silenciosamente.

Posso examinar. Coloque a bata, para frente.

Suas mãos percorrerão todos os espaços. Axila, de novo mama.

Otimo. Perfeito. Pode levantar.

Abraçou forte, beijou meus cobiçados cabelos brancos.

Ano que vem podemos nos ver. Que tal?

Isto com certeza. Disciplinadamente, todos os junhos faço checkup.

Vez que outra ligo para ele, pedindo um help para um amigo, ou orientação para outro. Sortuda, lucrei um amigo.

Lá se vão dez anos.

 

 

8.9.20

QUE VAS HACER ESTA NOCHE?




Havana se você bobear dorme todos os dias na madrugada, acorda
cedo, trabalha todo o dia, vai a universidade fazer o mestrado, lê de
pé nas guagas, chega. Num piscar de olhos encontra a agenda.
Caramba, reunião na casa do Conselheiro Comercial da Embaixada do
México compartir uma noite sui generis. Curtir as fotos e slides da
antártica. Descanso merecido e original.
De relance senti um olhar insistente. Outro e mais outro. Ciceroneava
Roberto recém na ilha desde Paris. Um passeio, àquele jantar, idas à
praia um namoro de férias julina, tudo por uma crise amorosa com o
trovador. Será?
- Preste atenção na tela. Roberto inquieto virava de posição inquieto.
Conhece o rapaz à sua esquerda?
- Nunca vi.
- Deselegante. Não tira os olhos daqui.
- Estará interessado na beleza, na aparência. Com toda está
elegância que lhe é peculiar chama atenção. Quem sabe?
- Aucune arnaque.
-Je ne suis pas
De regresso, um carro emparelhava, arriscando trocar palavras em
pleno trânsito
- Telefone - um gesto mundialmente conhecido, implorava.
- Ignorava.
No sinal fechado, quase aos gritos, pediu meu número.
- Disfarçava. Vontade louca de cair na gargalhada, diante da
insistência.
- Quem será este tipo?
- Ignoro. Enigma ?
- Estranho. Era convidado.

- Jamais o vi.
Passava da uma, fiquei em Miramar, Roberto foi ao seu apê em
Vedado.
- Campainha? Voltou Roberto?
- Como? Como chegou? Quem é você?
- Calma. Não sou ladrão, nem tarado, ou coisa parecida. Sou
Wladimir Padilla, filho do seu amigo Oscar Padilla, Ministro do
Trabalho. Posso entrar.
- Não. E?
- Simples. Segui o carro. Vi o endereço. A luz que acendeu. Arrisquei.
- Está louco?
- Tampouco. É que nunca vi uma garota tão linda.
- Inacreditável. Suma por favor.
- Tudo bem. Dá-me seu telefone. Prometo não molestar.
- Dou, você vai?
- Vou.
Passei o número, prometendo, garantindo, em toda a minha vida
jamais atendê-lo.
Na hora do café, antes da saída para o trabalho, tocando à porta:
Wladimir.
Inimaginável!
- Achou mesmo que ia telefonar? Deixo você no hospital. Pelo
caminho, nos conhecendo.
Oscar, um grande amigo. Frequentava a casa com outros amigos
Ministros e diplomatas. Agressiva, sem sentido.
- Que vai fazer esta noite? Santa Maria, uma praia cerca do centro,
tem um barzinho gostoso? Que tal um Campari?
O mexicano lindo de morrer caiu no esquecimento. Preferia a alegria,
os papos políticos, as chamadas na madrugada, as aparições

inesperadas, as caminhadas no Malecón. Amor pacato com direito a
saudade e separação com lágrimas sem cogitação. O Brasil – única
meta. Tudo mais, pequenos fragmentos de felicidade. Vivíamos na
ponta da faca. A cada perda, noticias de tortura, mortes nos porões
da ditadura, desaparecidos quantos. Futuro? Cada minuto vivido.
Wladimir entendia bem. O pai lutou contra Fulgêncio Batista,
guerreou na Serra Maestra.Com o Che entrou em Santa Clara.
Cuidava como joia rara a Revolução.
Trabalhando em Moscou optou pelas férias no verão. Chegou Julho, o
verão escaldante, a viagem a Santiago para conhecer seus pequenos segredos.

Na deslumbrada madrugada santiagueira, Martí em versos se
entrepunha as taças de Campari brincavam o suave encontro. Nas
ladeiras, estive com intimidade no Pelourinho. No Museu de General
Antônio Maceo, prócer da independência de Cuba, junto a Máximo
Gómez e José Martí, contra o colonialismo espanhol numa guerra,
que durou mais de dez anos.
O cafezinho na casa da Maria, filha mais novo de Antônio Maceo grata
surpresas, passagem dos barbudos da Serra Maestra, Raul Castro
nascido em Birán como seu irmão Fidel, estudou, liderou lutas
estudantis, participou do Assalto ao Quartel Moncada, exilou-se no
México, desembarcou no Granma. Comandou o “Segundo Frente” na
Serra Maestra.
Dizem que é duro e rigoroso. De perto, simplicidade, contador da
história, divino ouvi-lo falando do Che, firme. È Chefe das Forças
Armadas Revolucionárias desde 1959 com 28 anos de idade. Wilma
Espín, companheira de vida e trajetória, guerrilheira, fundadora e
Presidente da Federação das Mulheres Cubanas.
“Aqui nadie se rinde” sentenció Almeida o guerrilheiro, poeta,
escritor, compositor em Alegria de Pio ao serem emboscados pelo
fogo inimigo
Juan Almeida Bosque, nascido de família humilde na cidade de
Habana, com um tremendo coração santiagueiro é um desses seres
excepcionais. Participou das guerras revolucionárias, organizou,
dirigiu um dos pontos mais estratégicos da resistência: o “Terceiro
Frente Oriental Mario Muñoz Monroy. Simples, terno, valente, tenaz,
fantasticamente humano. Muitas tardes, em Miramar comparti do
convívio deste companheiro entranhável.
Frank País, líder do Movimento 26 de Julho, é assassinado aos 23
anos, em uma emboscada. Santiago chora de luto chora a perda de

seu líder. Cuba reage. As forças militares de Batista retrocedem ante
a ira popular. Greve geral de trabalhadores
“... en los primeros momentos la gente quería llegar hasta el cadáver
y hubo forcejeo con los guardias. Es que la reacción popular fue
espontánea, muy poderosa y desde ese momento se paralizó la
ciudad, la gente se dedicó a ir a donde estaba Frank”... declarou
Wilma Espin.
Da Serra Maestra Fidel escreve a Célia Sanchez “Todos los esbirros,
todos los miserables que sirven a este régimen de un modo o de otro,
todos los politiqueros juntos, no valen la vida de Frank País”. Maria
trazia nos olhos marejados de lágrimas o orgulho meninos da Serra.
A revolução cubana tem em seus quadros homens de indescritível
compromisso com a vida, com seu povo, com a soberania de sua
pátria. Comove vê-los, conversar com eles, saciar de sua fortaleza,
nobreza de sentimentos e valentia.
Frank País me levou as tardes, e noites no Novo Vedado.
- “Nós éramos a retaguarda dos meninos da Sierra Maestra. Frank,
franzino, professor, cheio de ilusões e vontade férrea liderava o
Movimento no Oriente. Amado, respeitado por companheiros, vivia, e
respirava revolução. Vira e mexe entrava casa adentro sempre
sorridente buscando um biscoitinho para comer.
- O estomago reclama nervoso, tia. Precisa ouvir sua inquietude. Não
tenho tempo para grandes manjares. Qualquer coisa para enganar a
fome. Ia engolindo enquanto nos punha a par das últimas novidades.
Da cidade e do campo.
Por vezes um banho ligeiro no calor sufocante do verão caribenho,
trocava de roupa e saia às pressas para cumprir alguma tarefa. Era
um dos meus maiores orgulho junto com Raul. Meus dois meninos.
Quantas vezes tive por força das circunstancias viajar ao exterior
trazendo armas embaixo das rodadas saias junto com minha filha
maior. Frank ria como criança das peripécias nas furtivas viagens,
enquanto embrulhávamos o material para fazer chegar a montanha.
Nos parcos momentos de lazer fazíamos planos para o dia da Vitória.
De como o povo receberia Fidel nos braços. De como seria nossa ilha
livre com a queda de Batista.
Como se fosse agora, 30 de julho de 1957, como em vezes
anteriores, banhou-se as pressas trocou-se deixando sobre a cama
uma linda goiabeira toda suada, saiu para um encontro que lhe
custou a vida. Difícil foi aceitar sua morte. Difícil foram os dias que se
seguiriam sem Frank.
Lágrimas nos olhos, voz embargada ia descrevendo as ruas de
Santiago na morte do seu menino. Habana e Santiago presentes na
sala de Maria, e da adorável “tia” lembranças de um tempo em que
entregar –se em prol da liberdade era questão de honra. Nós também
não passávamos de simples meninos tentando um Brasil melhor.
Trêmula, segurando o choro a goiabeira de Frank País a tia me
regalou. Abraçados faltavam palavras.
Portas destrancadas, velho hábito de Santiago de Cuba, saímos da
cidade em direção à Capital renovados, atados pelo nó invisível da
paixão revolucionária.
Nós também não passávamos de simples meninos tentando um Brasil
melhor. Santiago se definia plena na canção de Augusto Blanca:
Santiago tus callejones paso a paso te recuerdan
Nómbrame alguno que nunca escribiera su historia,
nómbrame alguno donde no se hallan escuchado
alguna vez aquel petardo de las nueve,
nómbrame alguno que nunca sintonizaraaquel programa en la
habitación del fondo:
“…Aquí radio Rebelde
desde la Sierra Maestra…”
Amávamos tantas coisas em comum que extrapolamos o desejo para
nos tornarmos companheiros eternos.
Sagitariano, seguramente filho de Ogum, pregava peças a torto e a
direito.
- Hoje, vamos a uma paisagem sem precedentes.
Subimos a rua que contorna o “Morro” para ver o Malecón desde o
alto do túnel que corta a baía sob o mar.
- Vê. Existe coisa mais linda no planeta?

A mureta que separa o mar da avenida, emoldurada pelos prédios
centenários, faz do Malecón um dos mais belos cartões postais.
- Linda. Preciosa.
- Bom. Desculpa Copacabana é mais bonita. O mar beija em largas
ondas a areia. Nas grandes ressacas, atravessa a Avenida Atlântica.
A calçada que circunda a orla é de pedras portuguesas em formato de
ondas. Uma maravilha! Pode crer.
Abraçou - me suave, beijou meus cabelos e num riso maroto ..
- Perfeito. Nós é que preferimos fazer a revolução primeiro, e a
calçada deixamos para depois.
Incrível resposta.
Rio e Havana desfilavam pelo nosso imaginário. Estado da
Guanabara, assim denominado depois da transferência da capital
para Brasília, e o Estado do Rio de Janeiro se fundiram em um único,
cuja capital seria a cidade do Rio de Janeiro. Uma rápida e simples
cerimônia, ignorando os problemas sociais do outro lado da baía e o
papel que esta cidade desempenha no coração e na alma dos
brasileiros. Preocupados com os decretos que legalizavam a fusão dos
estados, esqueceram que o Rio de Janeiro viria a enfrentar todos
problemas inerentes a uma capital de um Estado carcomido pela
fome, pela miséria, pela falta de saneamento básico, pela imigração
desenfreada.
Nas prisões, milhares de companheiros continuam sendo torturados e
mortos largo do país.
O mundo explode, com imensa emoção, pela vitória dos vietnamitas
sobre o gigante das infames guerras. Americanos se retiram
humilhados, sob os olhares atentos do mundo. Membros da OEA
estudam o fim do bloqueio à Cuba, que já passa dos onze anos. Sem
sucesso. Apesar da vergonhosa derrota, os Estados Unidos não
cedem o fim do bloqueio.
A Ilha festeja a sua escolha para ser a sede do XI Festival Mundial da
Juventude e dos Estudantes, no verão de 1978. Na capital, começava
XII Encontro de Diretores de Centro de Escritores Socialistas. Fidel
recebe o anteprojeto da nova Constituição do País.
Maio, tiempo lluvias por caer – como diz o poeta. Celebra-se o
Primeiro de Maio na Praça da Revolução, José Martí. No teatro Lázaro
Peña, o XXX aniversário da queda do fascismo é celebrado com

tristes recordações do holocausto e a decisão férrea de impedir um
segundo capítulo deste na história da humanidade.
Os dias engolem as noites e os pores-do-sol empurram os luares para
a madrugada. Sinal de que o verão chegou e com ele os dias de viver
na praia, de brincadeiras, de teatro infantil, de idas ao cinecito, de
cuidar dos gerânios e das borboletas, de correr pelos pinheiros, de
pegar polvos com Luly, Ayu, Mary, de sair com os meninos . Da Ana
Glória e a delicada Ivetica. Dias de viver vinte e quatro horas de
alegria com Cell e Edu. Férias, tempo de pôr em dia os mistérios da
ilha.
A modernidade sem pressa se aproximava da ilha. Chamada a
Moscou via satélite. Conversar com Wladimir deixou de ser um
suplício. Dias de espera. Uma bela hora a telefonista anunciava; vou
completar a ligação.
- Que ai fazer esta noite?
- Em Havana?
- Porque não. Vamos tomar um Campari?
 

Wladimir Padilla, teimoso, atraente, carinhoso, brincalhão, é um
típico revolucionário cubano. Se me apaixonei por ele? Infinito
enquanto durou – seguindo a risca Vinicius de Moraes.

6.9.20

AMORES IMPERECIVÉIS

 

SAUDADE

NÃO TEM TRADUÇÃO MESMO

 

Atirava -me de supetão, aconchegava   entre seus braços disputando com a irmã mais  nova  todos  os carinhos. Caia aos prantos, quando o via engravatado de saída para o trabalho. Pegava qualquer coisa a minha pela frente, corria  das mãos  na  tentativa de contar com o  tempo conivente dos meus anseios ,permitisse descobrir o misterioso escritório. Não sabia onde, nem como. Somente, que a noite muitas vezes batia à porta, antes que seus passos fossem ouvidos cruzando o corredor.

Não raro um chiado tomava conta do meu peito perdendo horas e dias de diversão. Se não eram de chuva ou nublados, as compressas quentes eram substituídas por brincadeiras como aquelas cócegas de matar qualquer um de tantos risos. Eram os instantes em que o mundo borrifava ternura caminhando de mãos dadas com a felicidade.  Eu era feliz.  Erámos felizes.  

Velozes como raios as estações dançavam em redor do sol derramando um colorido de miosótis, gerânios, flamboyants nas ruas, praças, nas águas do rio que corria em direção ao mar. Certo que a sequencia entre elas me era desconhecido.  Em algumas, desnudavam as árvores, sapatinhos de lã, casacos nos finais das tardes obrigatórios, por vezes o pomar apinhava-se de mangas, jambos, carambolas, pinhas, tímidas e pequenas uvas.  

Alegria mesmo quando o sol reinava absoluto adentrando por todas as janelas, dominando por todos os lado Por estes dias aprendi amar os Por de sol, esperar a noite chegando tardia salpicada de estrelas, bem antes que elas iluminassem o céu num colorido de  amarelos em pinceladas num vermelho sangue, nos confundíamos entre  afagos, pique - esconde, historietas.

Nestes dias, metíamos no carro rumo à casa da vovó, paraíso perdido nas montanhas das Gerais, rodeado de pés de cana, arrozais, um pasto a perder de vista aguardando nossa vinda. Duas alegrias vitais, a vó amada e Biano, negro reluzente, lindo, querido como ninguém, confiado de brincar em travessuras no pomar ,na fascinante horta verdinha adornadas de saborosos e vermelhinhos tomates.

As esquivadas à igreja hábito que Dona Lídia não abria mão, era intolerável, fazia parte para ser feliz.  Felicidade tem preço. Alto por vezes.

Se natal todos os sapatinhos da janela, despertavam abarrotados de presentes. Ano novo dormíamos no horário estabelecido, mas o cheiro de comida impregnava tudo. O medo da folia de Reis, alarmante, corria assustada. Passada as festas, todos voltavam, ficava a criançada para curtir o frescor da liberdade. Diga- se de passagem nunca entendi o escritório precisasse tanto dele. Reuniões, altas horas. Almoços na casa da cidade para os políticos do Partido. Tomava horas de seus dias.

- Meu filho lamentava dona Lídia. Logo o Eduardo Gomes, da UDN ( União Democrática Nacional.  Bom mesmo é o Getúlio Vargas criou a justiça do trabalho em 1339, implantou vários direitos trabalhistas, salário mínimo, consolidou as leis do trabalho, semana de trabalho de 48 horas, carteira profissional e férias remuneradas. Não entendo este oposto. Dona Lídia ... quem disse que os filhos sempre seguem os pais? Política a parte, o que batia feio era a saudade.

Aquele ano, soou feio. Dentre a escola, deveres e saberes a asma alargou- se mais que anos anteriores. Esta a ausência sem maiores explicações, apenas o nervosismo pairando no ar.

Chovia muito, os flamboyants não floresceram tanto, o céu escondeu punhados de estrelas, vovó não fez os doces costumeiros, Biano resmungava pelos cantos.  Novembro, longe do natal infinidade de semanas.

Um novo bebe chegaria antes ou depois depende da lua ouvia a miúde quando ele levou-me para a casa de Angustura, onde a alegria pousara para descansar de sua larga viagem. Na cadeira de balanço, quentinha embaixo do cobertor amarelo pediu-me com a doçura que lhe era peculiar. Seja obediente, estudiosa, respeite as pessoas sempre, trate o Biano com muito carinho. Eu amo você. Beijou-me na testa enquanto ajeitava a coberta. Esta crise vai passar. Eu volto antes das festas. 

Aquele brinco de bolinha preta, na orelha da minha tia devia ter um significado. O sepulcral silêncio na enorme casa da Vila com janelas abrindo frente a igreja,outro mistério. Tudo mudou naquele dez de dezembro. Vovó chorava desesperadamente. Nem uma palavra, só o abraço forte molhando meus cabelos. Dias sombrios. Sem bolo na hora do café, sem risos com Biano. Sem idas á igreja, sem ruídos. Toda a Vila entrava e saía depois de uma estendida visita.

Em Minas, tudo é permitido menos o escândalo. Crianças são excluídas das falas, das novidades, das angústias. Passaram dias, para saber a noticia que mudaria minha vida para sempre. Papai havia falecido. Havia recebido alta. Titia saia para buscar o carro, a enfermeira decidiu aplicar o remédio que deveria tomar por alguns meses. Um shock anafilático, arrebatou-lhe a vida. Não existem adjetivos que descreva esta dor.

Cinco anos é muito cedo para se ter consciência da realidade. Nos sapatinhos colocados no parapeito o sereno umedeceu todos eles. Percebi que do Papai Noel tinha outro nome. Decepção que acirrou mais a dor da eterna ausência.

Não sei quantos séculos passaram, se anos apenas, dias. Não sei se foram as chuvas de março, ou os buracos negros, se a nanotecnologia, se os filhos sagitarianos e pra lá de amados, nasceram nos dias 17/15 de dezembro, se Pablo, dia 11, que ouve Lenine cantando” Candeeiro Encantado”, empurrando para lá e para cá este Mac air. Se tenho que levantar-me para tentar tirar manchas verdes das mãozinhas pequenas que acariciam meu rosto. Se a vida transformou dezembro em especial, derramando nas semanas deste mês do calendário gregoriano, todos os sonhos acumulados, vividos, 10/12 esta marcado a ferro e fogo, ratifico inconsciente a falta do pai que fez toda a diferença. Hoje, o reconheci em uma foto postada no face por irmã deu uma saudade danada.

Em tempo: na certidão de Cidadania Portuguesa a data é 16/12 -  Vaya caualidad

 

 

 

 

16.8.20

SEMPRE NOSSO COMANDANTE

 

Quando o Comandante Fidel Castro completou 80 anos, o homenageamos com um grande concerto na Tribuna Anti-imperialista, com artistas nacionais e estrangeiros. Vira e mexe o celular de sua assessora tocava, ele, inquieto como sempre, queria saber se havia alguma novidade, embora estivesse assistindo a tudo ao vivo pela TV, pois se recuperava de uma cirurgia. Nós comemorávamos sua vida.

Na verdade, ele era o único que faltava na Tribuna. Fotos e abraços. Cantávamos alegremente, entre tantos amigos de várias partes do mundo. François Houtart tentava cantar uma canção. Abel Prieto, então Ministro da Cultura, brilhante, com sua graça  Pinharenha nos encantava. “Um dia, não muito longe, todos aprenderemos o hino de Pinar del Rio”, dizia-nos, e pensei, não tenho dúvidas.

Naquela noite, chegamos à conclusão de que seu legado não enquadra com o conceito de que o futuro é uma velha idéia.

Com sua determinação deu aos cubanos a consciência pelo conhecimento, de que é impossível mudar a história em profundidade, mas que o cotidiano pode se transformar em extraordinária - como nos disse Che Guevara.

Fidel realizou junto com seus colegas do Moncada, Granma e Sierra Maestra, acompanhado de seu povo, todos os seus sonhos: alfabetização para todos, educação gratuita, saúde pública impecável, desenvolvimento da ciência e da tecnologia, muito amor e cuidado e acima de tudo amor por Cuba, sem limites. É muito difícil não o amar e não respeitar sua dedicação ao povo cubano e à humanidade.

Ontem ouvimos lindas lembranças de amigos como Leonardo Boff, que nos contou a história de suas longas conversas com Fidel, de Eric Nepomuceno, que um dia numa fila perto do Hotel Habana Libre de repente esbarrou com o Comandante que lhe disse: pague-me um sorvete porque não tenho dinheiro no bolso, com as anedotas de Fernando Moraes, o querido escritor e jornalista que não tira a guayabera nem o  charuto da boca e que nos lembra sua chegada à Nicarágua no mesmo voo de Fidel à inauguração de Daniel Ortega, e a apresentação ao Comandante de um metalúrgico sem um dedo na mão, acidente de trabalho na fábrica. Anos depois, esse trabalhador seria o único presidente brasileiro a fazer o povo sorrir um pouco - como disse Oscar Niemeyer e, o que dizer da minha emoção por ter proporcionado tantas memórias a mais de 6.000 pessoas, inclusive a minha, repleta de uma saudade imensa.

Entre Sara González - com sua voz fazendo chorar os internautas com a bela e forte canção “La Vitória” e a presença de Rolando González, o Embaixador de Cuba no Brasil, falando-nos de Fidel Castro, o eterno Comandante, sabiamente compartilhou conosco , com a emoção peculiar de um revolucionário que sabe o quanto é precioso para todos saberem um pouco mais sobre o "Cayman", da esperança.

Gustavo Conde, o fantástico moderador de tantos encontros, cheio de emoção nos conta que chegamos ao final do live ouvindo o Maestro Felipe Radiceti tocar em seu piano a bela canção para o homenageado, que para sempre estará comemorando seu aniversário e os que continuarem nesta dimensão irão festeja-lo igual.

Fidel Castro Ruz, o jovem de Birán, o Guerrilheiro do Tempo, transcendeu horizontes, irradiou os mais nobres valores humanitários, será para sempre uma referência de luta, de crença na humanidade e de solidariedade.

Gracias Comandante.

Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2020

Marilia Guimarães (REDH-Brasil)

 

2.8.20

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