Skip to main content

Posts

Showing posts from March 16, 2014

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 9a. parte

1 de Janeiro de 1970 - Aeroporto de Carrasco -  Montevidéu - Vôo 114 - Dez anos da Revolução Cubana. Marcello e Eduardo correm pelo aeroporto, arregaçando a roupa à altura da cabeça, desenfreados, eufóricos,  arteiros. Um guarda passa, ora para lá, ora para cá olhando encantado a alegria dos dois,  que um ano de clandestinidade não logrou aplastrar. - Venham cá, meninos! - seguro os dois pelos braços - Quietos!- Sorrio para o policial que se detém com as travessuras inesperadas de Cell e Edu. - Vamonos niños, tranquilos. Después ustedes juegan. Ahorita van a entrar en el  avión. - diz o policial. Estão felizes de  regressar para verem o pai. - expliquei.
Com o olhar, busquei cada companheiro. -Passageiros do vôo 114, dirijam-se ao portão de embarque, ouvi em ecos... Dali para a frente, a sorte. Todos os detalhes haviam sido repassados, exceto o inesperado. André, Severina, Conga e Athos embarcam.
Acompanhada pelo olhar vigilante de Andrada, carregada de bolsas, crianças, passaportes e arm…

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 8a. parte

Com Pedrinho e Rodolfo havia traçado uma estratégia. Iria para Cuba. Diante da situação, não poderia desistir. A organização daria dinheiro suficiente para qualquer imprevisto. Andrada fora claro. Eu andava com os militantes da VPR, e, a qualquer deslize, ele não hesitaria em eliminar-nos. Não lhe faltava coragem ou determinação. Nada impediria a ação há tanto planejada. Ele era o comandante com poderes absolutos. Andrada vinha da Linha Vermelha, um segmento da esquerda radical. Era um guerreiro duro, inflexível.
Chegamos a Montevidéu, ao cair da noite.  Deixaram-nos.  Com carinho antecipado fomos recebidos por um casal de Tupamaros. Uma família Tupamara. Alegres, solidários, sofridos, amados, perseguidos, fortes e seguros.
Vez por outra soava a sirene. Era a polícia, buscando Tupamaros. Saíamos ao parque a caminhar, enquanto eles desfilavam pelas casas, registrando tudo e todos. Buscavam o que eles jamais lograriam encontrar: as idéias. Dias de expectativa, contudo maravilhosos. Trocá…

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE = 7a. Parte

Dezembro 1969

A cidade é  simples, interiorana, cálida,  um porto alegre, como diria Mário Quintana. Os poetas têm o dom de nos despertar a curiosidade e a paixão antecipada dos fatos e da história. Que seria de nós, simples mortais, sem  a maravilha dos sonetos e dos versos livres? Porto Alegre era uma dessas  curiosidades acesas pelas mãos do poeta. Nada diferente do que eu sonhara. Bonita. Gauchamente  charmosa. Hospedei-me no Hotel São Luiz; escolha estudada, com prudência, nas noites de São Paulo. Surpreendentemente, o hotel exigiu pagamento antecipado da minha estada. Preocupei-me. O dinheiro agora não daria para mais do que uma refeição. Descansamos um pouco da exaustiva viagem, e aproveitei o meio da tarde para conhecer um pedacinho da cidade antes de dirigir-me ao ponto estipulado.
Na hora marcada, 17h30m, lá estávamos, no lugar indicado. Um caramanchão, revestido de trepadeiras em flor, servia de ancoradouro aos barcos de passeio, que iam e vinham, cruzando o lago. Visitantes d…

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 6a, parte

Setembro 1969 Chegou a primavera e com ela Carlos. Passamos três dias felizes. O compromisso com Marcello continuava de pé. Em novembro, Fausto seria levado para uma audiência no Forum e neste dia eles realizariam a ação de resgate. Estávamos radiantes. Carlos voltaria para nos tirar de Belo Horizonte. A organização tinha planos para nós. Juarez e Lamarca eram contra a nossa ida para Cuba, como havíamos cogitado no início. - Estamos montando um campo de treinamento. Você vai para lá com outras companheiras. - adiantou. Carlos partiu, deixando-me com  renovada esperança. Sair de Minas, para começar uma nova vida em prol da revolução. Fosse qual fosse o aporte à libertação do nosso povo, era bem-vindo. Eu daria o melhor. Certa estou de que daria. Imbuída na esperança de dias melhores, encarava com mais otimismo o ostracismo. Na  semana seguinte à visita de Carlos, veio a ordem: - Vocês vão amanhã para o Rio, de lá para o Rio Grande do Sul.  -Mas, o Carlos disse que vem por estes dias.����…

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 5a.

-Vou levar vocês, provisoriamente, para a casa de um companheiro; o tempo para  conseguir um aparelho mais estável.
 Junho 1969O beco escuro servia de passagem para o barraco. Chovia forte lá fora. A cidade parecia não ter cara. Também, que me importava se ela tinha ou não uma feição própria? Que me importava esta ou aquela outra cidade, vila ou vilarejo? Queria, sim, um pouco de solidão. Um pedacinho de espaço para mim e os meninos. Queria chorar, sem cúmplices. Queria definir um caminho ou pelo menos entender melhor aquele que deveria trilhar. Sei que existem 256 caminhos, mas, não podemos escolher todos ao mesmo tempo.
A chuva insistia em perturbar meu sono. Jamais ouvira tão perto o barulho da chuva caindo no zinco. Estranha sensação de  liberdade. De tempo em tempo, ouvia vozes. Risos, rixas. A passagem  estreita colocava os transeuntes  quase em cima de nós. Pela manhã, chovia. Chovia tanto que extrapolava meu coração. A sábia natureza aliara-se a meu pranto para amenizar  minha d…