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VAYA CASUALIDAD


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Rua do Ferragial, 33 - Lisboa


As madeiras falavam anunciando seus passos no corredor. Interessante, como conversam, anunciam chegadas, reclamam de pisadas fortes. Costumam dizer ser o sol o culpado. Madeiras rangem, não duvidem pura  energia solar.  Realíssimo.

Simplesmente seus passos.  Só ela provocava tanto reboliço, nos corações e nas madeiras. Bobagem de criança argumentava vovó enquanto rodopiava em círculos, retângulos, quadriláteros atrás da, gordinha de cabelos brancos que ouvia pacientemente  essas histórias.
 

Atirava -me de supetão, aconchegava  entre seus braços disputando com a irmã mais  nova  todos  os carinhos. Caia aos prantos, quando o via engravatado de saída para o trabalho. Inventava pretextos para postergar a saída.

  •     Machuquei o dedo na porta.
  •     Pode colocar o laço no meu cabelo?
  •     Acho que quero um copo de leite.

Inútil. Trabalhar é preciso.

Velozes como raios as estações dançavam em redor do sol derramando um colorido de miosótis, gerânios, flamboyants nas ruas, praças, nas águas do rio correndo em direção ao mar. Todavia desconhecia a sequência entre elas. Quatro estações? Diziam quando insistia em dividi-las por flores, frutos, chuvas, frio.

 Em algumas, desnudava as árvores, sapatinhos de lã, casacos nos finais das tardes, obrigatórios. Outras vezes o pomar apinhava-se de mangas, jambos, carambolas, pinhas, tímidas e pequenas uvas.

Há! sem falar nos jambos de tão vermelhos lembravam a

bebidas das garrafas deitadas. Porque deitadas? Viver  é sempre curiosidade.

O planeta é redondo. Tem forma de ser, de aparecer ,de viver, de crescer, de sonhar. Aprendi a conhecer o mundo entre flores, estrelas, lágrimas e risos.

Alegria mesmo, quando o sol reinava absoluto adentrando por todas as janelas. Por estes dias aprendi amar os Por de sol, num colorido de  amarelos, pinceladas num vermelho sangue,ia devagarinho desaparecendo trás  montanha dando passo a noite salpicada de estrelas.

Ia crescendo entre o belo, as histórias de um país trás os montes, afagos, pique - esconde, muito amor.

Chiado no peito, lá ia entre alegre e triste à casa da vovó. Dias se  não  de chuva ou nublados, as compressas quentes no peito, rápido eram substituídas por brincadeiras como aquelas cócegas de matar qualquer um de tanto riso. Eram os instantes em que o mundo borrifava ternura caminhando de mãos dadas com a felicidade.

Vó é tudo de bom. No paraíso perdido nas montanhas das Gerais, rodeado de pés de cana, arrozais, um pasto a perder de vista, aguardava inquieta nossa chegada. Duas alegrias vitais, a vó  amada e Biano. Ela linda com seus cabelos acinzentados, gordinha e sorridente sempre, ele  negro reluzente, lindo, querido como ninguém, passava horas comigo em travessuras no pomar ,na fascinante horta verdinha adornadas de saborosos e vermelhinhos tomates. Amava aquele menino que tinha o mais lindo sorriso que caminham nas minha andanças pelo passado.

Impossível era  esquivar  à igreja hábito,que Dona Lídia não abria mão. Era intolerável, tinha que ser fazia parte para ser feliz.  Felicidade tem preço. Alto por vezes.

Se natal todos os sapatinhos da janela, despertavam abarrotados de presentes.

Ano novo dormíamos no horário estabelecido, mas o cheiro de comida impregnava tudo. O medo da folia de Reis, alarmante, corria assustada. Passada as festas, todos voltavam, ficava a criançada para curtir o frescor da liberdade. Diga- se de passagem nunca entendi porque o escritório precisasse tanto dele. Reuniões, altas horas. Almoços na casa da cidade para os políticos do Partido. Tomava horas de seus dias.

- Meu filho lamentava dona Lídia. Logo, o Eduardo Gomes, da UDN (União Democrática Nacional).  Bom mesmo é o Getúlio Vargas criou a justiça do trabalho em 1339, implantou vários direitos trabalhistas, salário mínimo, consolidou as leis do trabalho, semana de trabalho de 48 horas, carteira profissional e férias remuneradas. Não entendo este oposto. Dona Lídia ... quem disse que os filhos sempre seguem os pais? Política a parte, o que batia feio era a saudade.

Aquele ano, soou feio. Dentre a escola, deveres e saberes a asma alargou- se mais que anos anteriores. Esta a ausência demorada, sem maiores explicações, apenas o nervosismo pairando no ar.

Chovia muito, os flamboyants não floresceram tanto, o céu escondeu punhados de estrelas, vovó não fez os doces costumeiros, Biano resmungava pelos cantos.  Novembro, longe do natal infinidade de semanas.

Um novo bebe chegaria antes ou depois depende da lua ouvia amiúde, quando ele levou-me para a casa de Angustura, onde a alegria pousara sem mais explicações.

 

 Na cadeira de balanço, quentinha embaixo do cobertor amarelo pediu-me com a doçura que lhe era peculiar. Seja obediente, estudiosa, respeite as pessoas sempre, trate o Biano com muito carinho. Eu amo você. Beijou-me na testa enquanto ajeitava a coberta. Esta crise vai passar. Eu volto antes das festas de fim de ano.

 

Aquele brinco de bolinha preta, na orelha da minha tia devia ter um significado. O sepulcral silêncio na enorme casa da Vila com janelas abrindo frente a igreja,outro mistério. Tudo mudou naquele dez de dezembro. Vovó chorava desesperadamente. Nem uma palavra, só o abraço forte molhando meus cabelos. Dias sombrios. Sem bolo na hora do café, sem risos com Biano. Sem idas á igreja, sem ruídos.

Toda a Vila entrava e saía depois de uma estendida visita.

Em Minas, tudo é permitido menos o escândalo. Crianças são excluídas das falas, das novidades, das angústias. Passaram dias, para saber a notícia que mudaria minha vida para sempre. Papai havia falecido de uma forma inexplicável. Havia recebido alta. Didinha saíra para buscar o carro. Tudo pronto para deixar o hospital.

Preparado para a saída. Entra a  enfermeira, seringa em mãos ...

Vou aplicar o remédio que deveria tomar por alguns meses. Um choque anafilático, arrebatou-lhe a vida. Não existem adjetivos que descreva esta dor.

Oito anos é muito cedo para se ter consciência da realidade. Nos sapatinhos colocados no parapeito o sereno umedeceu todos eles. Percebi que do Papai Noel tinha outro nome. Decepção que acirrou mais a dor da eterna ausência.

Não sei quantos séculos passaram, se anos apenas, dias. Não sei se foram as chuvas de março, ou os buracos negros, se a nanotecnologia, se os filhos Marcello e Eduardo,sagitarianos,  pra lá de amados, nasceram nos dias 17/15 de dezembro, se Pablo - o neto querido,  dia 11, que ouve Lenine cantando "Candeeiro Encantado", empurrando para lá e para cá este Mac air. Se tenho que levantar-me para tentar tirar manchas verdes das mãozinhas pequenas que acariciam meu rosto. Se a vida transformou dezembro em especial, derramando nas semanas deste mês do calendário gregoriano, todos os sonhos acumulados, vividos, 10/12 está marcado a ferro e fogo, ratifico inconsciente a falta do pai que fez toda a diferença. Hoje, o reconheci em uma foto postada no Facebook por irmã. Deu uma saudade danada.

Em tempo: na minha Certidão de Nacionalidade Portuguesa, a data é 16/12 -  

Vaya casualidad!

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