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Entre o azul e o medo

Amanhecia quando me banhei, lavei a cabeça, preparei –me linda para chegar à Clinica São Clemente. Dr. Cabral esperava tranquilo, confiante. Em pouco, estava na sala de operações. Eduardo deveria ser retirado antes que a bilirrubina subisse mais do suportável, para o bebê. Com RH negativo – década de sessenta – sem a tecnologia de hoje, uma cesariana era a solução.
Rápido dois olhinhos azuis olhavam ao redor. Num corre corre, médicos, enfermeiras manipulavam a retirada troca do sangue através do cordão umbilical. Anestesiada apenas soube do resultado.
- Excelente. Não tenho dúvidas que foi um sucesso – alegou Dr. Michael Sader.
Horas depois já recuperada do anestésico admirando as folhas balançando ao vento, entrou Marcello subindo na cama, quase me arrebentando os pontos para comemorar a chegada de seu irmãozinho. Faltavam dois dias para que ele fizesse um ano. Falando pelos cotovelos diz que Edu lindo. Lindo. Lindo e mexe com as mãozinhas.
- Gostou.
- Gostei. Ele vai brinca comigo. Vai.
- Vai e muito, por toda a vida afora.
Desse modo chegou naquela manhã de dezembro sob o signo de sagitário dia 15, meu segundo dos meus maiores amores.
È duro como uma rocha, terno tal qual o azul dos seus olhos. Não mede esforços para o sim ou para o não. Destemido enfrenta a vida, vai em frente sem curvas. Resistiu àqueles dias de dezembro para sobreviver. Quisás esta guerra interna determinaram seu caráter. Venceu todas as batalhas. Ganhou a guerra e caminhou em frente construindo sua vida.
Aprendi muito. È meu analista, amigo, maior incentivador. Enfurece se caio no caminho algumas vezes quando a pressão chega ao limite, mas me levanta.
- Romântica empedernida, sonhadora, guerreira, aprendi que a vida é assim. Tem Nicholas minha doce e suave paixão, Vitória, a mais doce alegria, e Márcia – companheira há anos.
Caminhamos juntos os três faz quarenta e quatro anos, somando amigos pela estrada. Brigamos, sorrimos, mas como poetiza Roque Dalton:
... que mis venas no terminan en mí,
sino en la sangre unánime
de los que luchan por la vida,
el amor,
las cosas,
el paisaje y el pan,
la poesía de todos.

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SOU FELIZ, SOU MUITO FELIZ - OBRIGADA EDUARDO GUIMARÃES

Edu, sempre amou Fernando Pessoa.  Seu livro de cabeceira preferido. Nunca dorme sem um pequeno verso. Amo você garoto!.


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Não tenh…

Do capim gordura a brachiaria II

Cheguei uma hora antes. Coisas de engenharia de transito. Sai na hora viável atrasa, se antes corre o risco de adiantar tanto como uma hora de antecedência, por exemplo. Assim foi. Evaldo sai da sala e depara comigo adiantadissssssssima. Um abraço feliz, perguntas sobre a família, esposa. O corriqueiro agradável.
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A UM ESTRANHO - WALT WHITMAN

A um Estranho Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.