Pular para o conteúdo principal

31 de março de 1964 - Começa os anos de chumbo



Alunos entravam gesticulando sussurrando baixinho. Mauro me esperava com noticias do PCB de que o congresso andava em polvorosa, os bancos em reuniões discutindo saídas emergenciais, até negociações se cogitava entre os 2º e 3º. Exército. Sai direto para a Saúde. O destino das cartilhas nos preocupava.
Todos os acontecimentos indicavam em direção a um golpe da direita. A resistência dos Marinheiros no dia 25 por José Anselmo dos Santos – Cabo Anselmo na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em Benfica, desobedecendo a ordem do Ministro da Marinha Silvio Mota tinha um destino certo. Os golpistas tinham um aliado perfeito para desmantelar no momento oportuno se houvesse resistência. Muitas águas rolaram antes de entendermos os rumos que tomam o poder de uma nação. Forjado diante de tantos olhos o traidor cabo Anselmo.
O clima de crise política e as tensões sociais aumentaram durante todo o dia. Tropas de Minas Gerais e São Paulo aparecem na ruas.
O golpe militar se consolida. Sob o comando do general Mourão Filho, as tropas de Minas marcharam em direção ao Rio de Janeiro e a Brasília. Jango, no Palácio das Laranjeiras decidia seu destino e o do Pais.
Já beirava a madrugada quando voltei a Laranjeiras. Caminhões de lixo impediam a passagem de carros, apenas moradores – ordenavam os militares. Tanques fechavam a entrada ao Parque Guinle que leva ao Palácio das Laranjeiras residência do Presidente da República. Passei o resto da noite na varanda atenta aos movimentos no Palácio. Impraticável conciliar o sono.O destino do Brasil estava sendo traçado.
Jango ainda no Rio recebe o manifesto do General Mourão Filho exigindo sua renúncia. General do Exército, Amaury Kruel Comandante do 2º. Exército adere ao golpe. Carlos Lacerda – Governador do Estado da Guanabara, Ademar de Barros em São Paulo, Magalhães Pinto concordam.
Na manhã de 1º. De abril de 1964, João Goulart deixa o Rio de Janeiro parte para Brasília na tentativa de controlar a situação.Sem o apoio armado dos grupos que o sustinham sai da capital em direção a Porto Alegre.
Auro de Moura Andrade,Presidente do Senado, afirmou vago o cargo de presidente. Ranieri Mazzili, presidente da Câmara do Deputados, assume a Presidencia. Solidifica a reação conservadora, liderada pelos militares.Os militares assumem o poder
O Ato Institucional Número 1 (AI-1) é decretado no dia 9 de abril - cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade de funcionários públicos.
A violência toma as ruas, inicia a cassa aos que tentavam dar uma nova cara a este país. Aos amantes da Paz a guerra, aos sonhadores a tortura. A repressão atinge os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas presas, torturadas. O líder comunista Gregório Bezerra é amarrado e arrastado pelas ruas de Recife.
Começa os anos de chumbo.

Comentários

Posts Mais Lidos

1996 - Direitos Humanos violados no Brasil e no Mundo

Ao longo das últimas décadas, o Brasil assinou uma série de convenções, tratados e declarações que visam a garantir os direitos humanos fundamentais em nosso país. Apesar disso, diariamente, pessoas sofrem por terem seus direitos violados. São humilhadas, maltratadas e, muitas vezes, assassinadas impunemente. Tais fatos repercutem mundialmente, despertando o interesse de diversas organizações não-governamentais, que se preocupam em garantir os direitos acima mencionados, como a Human Rights Watch, que, anualmente, publica uma reportagem sobre a situação dos direitos humanos em diversos países do mundo, e cujos relatos sobre o Brasil, nos anos de 1996 e 1997, serviram de base para o relato exposto a seguir.

Relatório em 1996:

O ano de 1996, no Brasil, foi marcado por massacres, violência rural e urbana, más condições penitenciárias e impunidade gritante.

No dia 19 de abril, em Eldorado dos Carajás, Pará, a Polícia Militar, com ordem para evitar que cerca de duas mil famílias ocupassem …

José Ibrahim- um herói do movimento operário

José Ibrahim- um herói do movimento operário

1968 marcou o século XX como o das revoltas - estudantis operárias, feministas, dos negros, ambientalistas, homossexuais. Todos os protestos sociais e mobilização política que agitaram o mundo como a dos estudantes na França, a Primavera de Praga, o massacre dos estudantes na México, a guerra no Vietnã se completam com as movimentos operários e estudantil no nosso pais. Vivíamos os anos de chumbo, o Brasil também precisava de sua primavera.
Em Contagem, região industrial da grande Belo Horizonte, Minas Gerais, abriu caminho as grandes greves metalúrgicas coroada pela de 1968 em Osasco - região industrial de São Paulo onde brasileiros de fibra e consciência, miscigenam suas origens e raízes abalizadas pela particularidade brasileira, em plena luta contra a ditadura militar.
Jose Ibrahim, 21 anos, eleito para a direção Sindical, jovem, líder por excelência, simplesmente parou todas as fábricas de Osasco, na época pólo central dos movimentos de …

Inez Etienne - única sobrevivente da casa da morte em Petrópolis

Única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura do regime militar em Petrópolis. Responsável depois pela localização da casa e do médico-torturador Amílcar Lobo. Autora do único registro sobre o paradeiro de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, que comandou Dilma Rousseff nos tempos da VAR-Palmares. Última presa política a ser libertada no Brasil. Aos 69 anos, Inês Etienne Romeu tem muita história para contar. Mas ainda não pode. Vítima há oito anos de um misterioso acidente doméstico, que a deixou com graves limitações neurológicas, ela luta para recuperar a fala. Cinco meses depois de uma cirurgia com Paulo Niemeyer, a voz saiu firme:

DIREITOS HUMANOS: Ministra acredita na aprovação da Comissão da Verdade no primeiro semestre deste ano

- Vou tomar banho e esperar a doutora Virgínia.

Era a primeira frase completa depois de tanto tempo. Foi dita na manhã de quarta-feira, em Niterói, no apartamento onde Inês trava a mais recente batalha de sua vida. Doutora Virgínia é a fi…