Pular para o conteúdo principal

24/08 Repadores de sonhos - Comissao de Anistia

Em nome do Estado, em franco processo democrático, o jovem Presidente da Comissão de Anistia – Paulo Abrão – com o respaldo de seus Conselheiros,que resistem as pressões de segmentos da sociedades não comprometidos com o desenvolvimento histórico do Brasil, levanta-se, manifesta sua indignação e vergonha diante dos depoimentos cheios de emoção, da dor dos perseguidos, torturados, desparecidos, assassinados, sobreviventes, pede humildemente desculpas pelos abusos praticados pelos regimes de exceção no Brasil.
A cada sessão de julgamento o ritual se repete, num misto de perplexidade, violência, espanto e agonia aqueles que voluntariamente lêem processos, analisam fatos, mergulham nas almas, nas angustias, nos sofrimentos de milhares de brasileiros, que um dia ousaram vencer as barreiras do silencio, do medo, da opressão para defender o solo pátrio contra interesses espúrios.
É no instante, que antecede a palavra de Paulo Abrão, que passa como um filme fora de rotação, super acelerado, em um nano segundo toda uma vida ceifada, todos os sonhos perdidos, tudo o que não pode ser. É neste instante de intensa aflição que passado e presente se entrelaçam expondo a importância do gesto de entrega destas gerações que de uma maneira ou outra fizeram possível o Brasil de hoje.
Na ternura do gesto, no levantar pausado quase em câmera lenta, para não ferir o momento que separava o pedido de desculpas, do agradecimento a Betinho – sua voz percorreu os prados, invadiu as florestas, buscou os que ficaram no Araguaia, penetrou nas úmidas cárceres, buscando a palavra certa que amenizasse tanta barbárie praticada por brasileiros contra brasileiros.
Tudo o que senti naquele momento não cabe palavras para expressar todo um sentimento de respeito, de admiração e afeto aos que dia a dia resgatam a memória recente da minha pátria. Em cada um deles vi refletida a minha imagem e a dos meus jovens companheiros. A mesma força, a mesma garra, o mesmo romantismo revolucionário, a mesma entrega.
Obrigado por este momento fecundo.

Marilia Guimaraes

* Este artigo foi escrito no dia da Reparacao do Betinho. Nao publiquei para que a para que nao fosse mal intrepretada.

Comentários

Posts Mais Lidos

1996 - Direitos Humanos violados no Brasil e no Mundo

Ao longo das últimas décadas, o Brasil assinou uma série de convenções, tratados e declarações que visam a garantir os direitos humanos fundamentais em nosso país. Apesar disso, diariamente, pessoas sofrem por terem seus direitos violados. São humilhadas, maltratadas e, muitas vezes, assassinadas impunemente. Tais fatos repercutem mundialmente, despertando o interesse de diversas organizações não-governamentais, que se preocupam em garantir os direitos acima mencionados, como a Human Rights Watch, que, anualmente, publica uma reportagem sobre a situação dos direitos humanos em diversos países do mundo, e cujos relatos sobre o Brasil, nos anos de 1996 e 1997, serviram de base para o relato exposto a seguir.

Relatório em 1996:

O ano de 1996, no Brasil, foi marcado por massacres, violência rural e urbana, más condições penitenciárias e impunidade gritante.

No dia 19 de abril, em Eldorado dos Carajás, Pará, a Polícia Militar, com ordem para evitar que cerca de duas mil famílias ocupassem …

José Ibrahim- um herói do movimento operário

José Ibrahim- um herói do movimento operário

1968 marcou o século XX como o das revoltas - estudantis operárias, feministas, dos negros, ambientalistas, homossexuais. Todos os protestos sociais e mobilização política que agitaram o mundo como a dos estudantes na França, a Primavera de Praga, o massacre dos estudantes na México, a guerra no Vietnã se completam com as movimentos operários e estudantil no nosso pais. Vivíamos os anos de chumbo, o Brasil também precisava de sua primavera.
Em Contagem, região industrial da grande Belo Horizonte, Minas Gerais, abriu caminho as grandes greves metalúrgicas coroada pela de 1968 em Osasco - região industrial de São Paulo onde brasileiros de fibra e consciência, miscigenam suas origens e raízes abalizadas pela particularidade brasileira, em plena luta contra a ditadura militar.
Jose Ibrahim, 21 anos, eleito para a direção Sindical, jovem, líder por excelência, simplesmente parou todas as fábricas de Osasco, na época pólo central dos movimentos de …

Inez Etienne - única sobrevivente da casa da morte em Petrópolis

Única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura do regime militar em Petrópolis. Responsável depois pela localização da casa e do médico-torturador Amílcar Lobo. Autora do único registro sobre o paradeiro de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, que comandou Dilma Rousseff nos tempos da VAR-Palmares. Última presa política a ser libertada no Brasil. Aos 69 anos, Inês Etienne Romeu tem muita história para contar. Mas ainda não pode. Vítima há oito anos de um misterioso acidente doméstico, que a deixou com graves limitações neurológicas, ela luta para recuperar a fala. Cinco meses depois de uma cirurgia com Paulo Niemeyer, a voz saiu firme:

DIREITOS HUMANOS: Ministra acredita na aprovação da Comissão da Verdade no primeiro semestre deste ano

- Vou tomar banho e esperar a doutora Virgínia.

Era a primeira frase completa depois de tanto tempo. Foi dita na manhã de quarta-feira, em Niterói, no apartamento onde Inês trava a mais recente batalha de sua vida. Doutora Virgínia é a fi…